domingo, 31 de outubro de 2010

Ao anjo mais belo apenas um grito de adeus

 
 
 
Já joguei ao vento palavras inúteis, já esfreguei em tua face palavras duras feito concreto, tão amargas como gim, palavras cortantes que embriagam como a minha dor, uma dor tão imensa que já não se contém em si.

Agora quero te oferecer palavras leves, bobas como toda sabedoria de um século comercial.

Quero a vida leve e lenta, como um chá no fim de tarde, ou um comercial no campo com cachorros latindo e crianças brincando aos últimos sorrisos do sol.

Quero apenas a calma de quem entendeu que o único sentido da vida é a amplitude de perguntas e ausência das respostas.

Quero ser como a luz do sol, a primeira do dia, que ousa irromper as trevas da noite.

Quero apenas espaço, uma folha em branco onde eu possa começar a existir.

Não, não quero sangue! Não quero mais a vida trancada dentro de mim!

Quero sorrir um sorriso calmo, humano, o sorriso de uma modelo indigente que perdeu o medo de se perder.

Um sorriso merecidamente humano, de uma humana em demasia, cujo único mérito foi aprender que mesmo os anjos mais belos podem estar perdidos a ponto de engessar nossas asas para que com eles permaneçamos no porto seguro de uma vida infeliz.

Um dia eu amei um anjo, amei a ponto de destroncar minhas asas, e com o sangue de uma dor que não sentia construir com adorno à ele um altar em mim.

Me sujava as asas saber o mal que esse anjo fazia a mim, que seu amor tão grande era lamina perene rente a minha carne infantil., amor que me nutria tanto  a ponto de me destruir, amor que me deixava anêmica a ponto de não mais voar, não mais existir.

Hoje minhas asas doem, o céu da vida é quente como um dia de sol, e quando olho o outrora porto seguro vejo ainda o belo anjo, parado, engessado, blasfemando e orando ao mesmo Deus.

Em meus vôos agridoces aprendi belas e ambivalentes lições, talvez a mais doce e cortante é que amor nem sempre é sinônimo de encontro, que é preciso alçar meus próprios vôos pra longe, bem longe das asas do mais mortal e bonito anjo que conheci

De tanto amar esse anjo entendi que não posso tocar-lhe as asas, pois o mesmo amor que nutre, machuca, destrói, é fatal.

Agora preciso curar minhas asas e entender a dor e a delicia de quem por si mesma já pode aprender a voar.
July Reader

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