domingo, 31 de outubro de 2010

3- A Analista. A Sós.


Fui até o Parque Central cumprir meu ritual sagrado de todas as noites, Minha caminhada. Porém após a segunda volta desisti do intento, toda minha energia havia ficado em Daniely.

A estrada e as arvores que sempre enchiam-me os olhos foram solenemente ignoradas,  olhava pra dentro e só conseguia ver o rosto de minha paciente...seus punhos, a dor...

Eu conhecia bem a intensidade daquela dor...

--Sig, vem cá amor, isso bebe da mamãe. To precisando de carinho Sig!!!

 Sig é o meu labrador branco, meu grande amor... escolhi esse nome em homenagem ao pai da psicanálise.

Não sei se o Sig explica ou complica, mas sem duvida ele é muito mais fofinho do que o Freud.

Sentei no chão, esparamada, e ele logo veio correndo desageitado e abanando o rabo... calma Siiiiig...

Levamos uma trombada digna de cinema, eu até que tentei dar uma bronca, mais ele veio com aquela carinha de cachorro pidão, se jogou no meu colo, e com o fucinho colocou meu braço sobre sua cabeça...

Ficamos assim por um tempo... por mim teria sido pela noite inteira, mas ele não sabe ficar 1 minuto quieto...

--Para Sig, você é hiperativo...

Ele não gostou do diagnostico, abanou o rabo e me deixou falando sozinha...

Sabe Sig, você é tão simples amor... Só quer comida e carinho, não se angustia, não é ansioso,, jamais cortaria  suas patinhas...

Ele fitou sua dona, mostrando interesse, e deu-lhe uma lambida reconfortante...

--Rsrs... Sig você é o melhor terapeuta do mundo!!!

Servi o jantar do meu gatinho( James, um amigo terapeuta comportamental me dizia que eu ainda ia criar uma crise de identidade no Sig, onde já se viu chamar esse baita cachorro de gatinho, protestava ele), comi uma fruta qualquer e deitei...

A noite seria difícil....

Como de costume cheguei em meu consultorio as 5h em ponto.

Esse era um horário mágico, até meus pacientes com insônia, já tinham ido dormir,,, podia me entregar plenamente aos meus livros e textos...era a minha higiene mental... A solidão do consultório era confortadora... um dia num divã como esse eu também fui paciente...

A psicologia sempre exerceu fascínio sobre mim... mas foi durante o processo da terapia que descobri minha grande paixão...

Passar por uma análise é algo imensurável, foge a qualquer outra classificação... quer fazer uma pergunta difícil a um paciente, pergunte o que é s seu terapeuta para ele...
È alguém perante o qual você desnuda seus mais íntimos fantasmas,, suas mais profundas vergonhas e medos... ele testemunha suas lagrimas e vitórias...  muda parte da sua vida... e você? O que sabe sobre ele??

Numa relação de amizade a cada segredo contado é normal receber também uma revelação do amigo, prestar-lhe apoio, saber de seus sonhos em fim...

Porém terapia não é amizade, nem família... o terapeuta é mais que seu médico, o vinculo é forte... ele é aquela pessoa para quem você pode ligar as duas da manhã, porém sabe que a recíproca é inteiramente falsa...

 O toque estridente do telefone arrancou-me bruscamente de minhas lembranças... após acalmar um paciente, coloquei o notebook sobre as pernas e recostei minha cabeça na almofada branca. Adorava deitar em meu velho tapete felpudo.

Tomei entre as mãos minha xícara de café, estava fumegando...

Muitas pessoas afirmam que o preferem o cheiro do café a seu gosto... o que eu mais gosto no café é o calor.

o café quente confortando minha pele me leva a um lugar seguro, as vezes fico assim por vários minutos até o café esfriar, então desisto do intento de bebê-lo.

Estava com todas as minhas anotações sobre Anna claudia... eu não conseguia entender o súbito retrocesso dela...

As lembranças voltaram à minha sala de cinema mental... eis um pouco de sua historia...

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