domingo, 31 de outubro de 2010

2- A Analista. A face da dor


bela professora primária apertava a unha cumprida contra a pele do braço, aquele ritual de dor parecia acalmá-la.

--Daniely, vamos lá?
--Ela respirou fundo, e me deu um leve aperto de mão..Estava tão fria que quase gemi.

Reparei por um instante seu rosto, feições delicadas, cabelos e olhos cor de mel. Uma mulher muito bonita, mas algo em sua expressão destoava do restante da face.

Fazia um forte calor... todos os meus pacientes do dia trajavam roupas leves, e os que estavam mais formais, despojavam-se dos blazers logo ao entrar...

O ar condicionado no Maximo parecia uma brisa acanhada...

Apesar do clima, Daniely vestia uma blusa de manga comprida, seu corpo extremamente rígido, a bolsa e minha almofada no colo, mais fechada impossível...

A primeira imagem que me veio à mente, foram punhos e pulsos retalhados, ardendo sob a densa camada de pano... Eu não estava errada...

Vários colegas trocavam historias sobre as pequenas armadilhas de seus consultórios... uns mantinham portas ruidosas, outros propositadamente quadros desalinhados na parede. São chamarizes cuja quais alguns pacientes não conseguem resistir. As minhas eram as almofadas...

Com certa dose de maldade eu mantinha 2 almofadas na poltrona destinada aos pacientes. As reações eram as mais diversas... Alguns as atiravam sobre o divã sem dar importância, outros as colocavam no chão com certo constrangimento, tiveram outros que me perguntaram o que fazer com elas, e a maioria, como minha paciente,usavam as almofadas sobre o colo como um escudo entre nós...

Furtando-me de meus pensamentos ela começou a chorar... Esperei alguns instantes, estendi um lenço, não posso expressar em palavras o que vi em seu rosto, porém nunca vou esquecer, se a dor tinha rosto ele estava agora em minha frente. Daniely era a face da dor.

-- Eu não consigo, desculpe.
--Tudo bem, você tem o tempo que precisar.

Os seus olhos pediam ajuda, tive vontade de acalentá-la em meus braços, O peso do silêncio pairava sobre nos duas, eu não agüentava mais.

-- O que te trouxe até mim, Daniely...

-- Ela não disse uma palavra, apenas levantou a manga da blusa e mostrou-me um dos seus braços, fitei-os por um instante, cortados simetricamente do cotovelo ao punho, varias cicatrizes de cortes já fechados, voltei a olhar em seus olhos, ela desviou-os de mim.
Era claro a humilhação que ela sentia, imaginei por um instante quão solitária ela devia ser...

--Você se corta a muito tempo?
- Dois anos. No começo eram 2, 3 cortes por semana, pequenos sem marcas, eu só me cortava quando estava triste, quando fazia besteira... me cortava com um alicate, quase não sangrava... com o tempo, não sei quando, foi ficando cada vez mais freqüente,,, se eu estava feliz me cortava, se estava triste, ou entediada também...

O alicate já não adiantava, como uma droga eu tinha que aumentar a dosagem, passei então a usar um estilete...

Ela fez uma pausa profunda, como se precisasse respirar levantou-se e caminhou em direção a janela, ficando de costas para mim...

-- Eu carregava o estilete na bolsa, as vezes ia para o banheiro da escola onde trabalho, sentava no chão e me cortava... Minha bolsa era quase uma farmácia... Álcool, banda ide, pomada... E por fim uma toalha para secar o sangue que caia no chão...
Eu cortava a barriga, pois era mais fácil de esconder... Depois a perna, o pé, a palma da mão, e como uma praga as cicatrizes foram ganhando meu corpo inteiro...  E eu perdendo minha liberdade...

As roupas cada vez mais longas, as portas cada vez mais fechadas... Não sei se você entende... Acho que nem eu.

O choro subtraiu-lhe a vós, ela soluçava...

Eu geralmente não interferia nas reações do paciente, deixava-os livres para se expressarem... Sentar no chão, deitar no divã, andar, folhar meus livros ... Mas o sofrimento dela era tão intenso que eu tive que intervir.

O soluço furtava-lhe o ar, ela estava desesperada.

--Eu não consigo respirar.

--Você precisa se acalmar (eu falava pausadamente, dando ênfase a cada palavra e repetindo diversamente os comandos)

--Sente-se, fique em uma postura confortável..
--Daniely, você esta me acompanhando.
Ao sinal positivo continuei...
--Tudo bem, eu quero que você inspire contando de um a cinco e expire contando de 5 a 1..
--- Você pode fazer isso Daniely? Muito bem, concentre-se na minha voz.
-- Inspira, um, dois,, três,quatro,,,,cinco.
--Você esta indo bem, expira cinco,, quatro três dois um,,,
Depois de algumas dezenas de repetições pudemos retornar a conversa... o nosso tempo havia estourado em mais de 10 minutos, porém mandá-la embora daquele modo seria o mesmo que deixar um paciente aberto na mesa de operação.

--Como você esta se sentindo?
-- Bem obrigada, desculpa a cena...

-- Daniely, eu estou aqui para ajudar você a entender isso, e em terapia nos vamos abrir muitas feridas profundas (que trocadilho infeliz) então você não precisa ter vergonha de falar o que sente...

-- Obrigada,,, eu nunca tinha falado disso com ninguém ..

--E como foi pra você dividir isso comigo??

-- È horrível falar sobre isso, mas um alivio dividir com alguém.

-- Pelo menos nesse início eu gostaria de te ver 3 vezes por semana, tudo bem???
- Eu trabalho até as 5 na escola.

-- Que tal segunda, quarta e sexta as 6.45?

--Acho que da,
--Além da terapia, eu vou te passar uma medicação, para te ajudar com os cortes.
-- Eu odeio remédio, mas acho que não tenho mais escolha.
-- Esse medicamento vai te ajudar a dormir e a se sentir melhor.
--Dormir, eu já nem sei o que é isso...Você acha que eu vou conseguir dormir??

-- Ele demora mais ou menos 15 dias para ter um efeito significativo no organismo, mas eu vou te dar uma amostra de um remédio que tenho aqui que faz efeito imediato, se você se sentir muito deprimida, com vontade de se machucar eu quero que coloque um comprimido de baixo da língua e deixe-o dissolver...

--Eu to com medo de perder o controle...

-- Você está medicada agora, e eu estou com você... Vou te dar meu telefone... Esse é o do consultório, esse aqui da minha casa e esses do meu celular... Se você precisar eu quero que me ligue não importa a hora, tudo bem?
-Ta bom.

--Se você sentir esse medo, ou tiver vontade de se machucar me liga ta.
Ela assentiu com a cabeça.
Te vejo na sexta, se você sentir qualquer efeito da medicação, ou se quiser me ver, estarei aqui amanhã, e você tem meus telefones...

Eu repetia os comandos, como se falasse com uma criança que vai ficar pela primeira vez longe da mãe... Fiquei olhando pela janela até ela entrar no carro...

Ela me deixou com um nó na garganta... Sentei no meu tapete e fiquei absorta em meus pensamentos... Na verdade as imagens passavam vertiginosamente por mim... Era a minha ultima paciente do dia, eu estava exausta...

Apaguei as luzes, tranquei a porta, pensei naquela mulher aos pedaços que acabara de ir, pensei em DEUS, e implorei que pelo menos por essa noite ela pudesse dormir e que assim não se machucasse...

July Reader

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