domingo, 31 de outubro de 2010

1- A Analista. Cristal

 
 
Faltavam 15 mim para conhecer sua nova paciente.

Lara se jogou exausta no divã e começou a folhear uma revista especializada em dietas...

A analista, como toda mulher executava diariamente exaustivos rituais de beleza, desta vez porém não estava atrás de um novo cardápio, tampouco da nova promessa dos nutricionistas, ela já tinha sua própria coleção de grãos... aprendera desde pequena que aveia fazia bem, com o tempo seu potinho de granola já tinha  castanhas suficientes para dar injeja a qualquer flores recentemente se encantou com a quinua , acrescentando mais uma promessa ao seu pote de ração humana.

Como toda mulher ela também precisava perder 3 kg.

Mas dessa vez não lia com ares consumistas, seus olhos corriam absortos para tentar dar a mente inquieta um pouco de  luz...
O que a levara a leitura foi a repentina piora de sua paciente Anna Claudia.

A principio a menina reagira bem ao tratamento, estava fazendo progressos estimulantes, começava a se ariscar pelas curvas do inconsciente, e tentar descobrir nesse território quase inexplorado o que a levara a anorexia nervosa.

Lembro-me em cores vivas da primeira vez que atendi Anna Claudia.

Praticamente empurrada pela mãe para dentro do meu consultório o frágil cristal  desabou na poltrona e se apressou em esconder atrás da almofada a barriga que supunha ter.

Sua imagem, a primeira vista me chocou, na minha fixa constava que s paciente teria  17 anos, mas o espectro a minha frente não aparentava  ter chegado aos 10.

--Oi Anna Claudia, tudo bem?
-Anna.
--Anna, ok. E no que eu posso ajudar você, Anna?
-- Minha mãe me obrigou a ver você, eu não preciso de uma psiquiatra!
-- E por que sua mãe acha que você precisa me ver?
-- Porque todo médico é babaca, e o que me atendeu disse para ela que eu tenho Anna(anorexia)

O Rosto frágil daquela menina tenha uma expressão distante, mor6a,  ela já havia ultrapassado o limite da dor, e pior que a dor, somente o vazio.

As 4 primeiras sessões foram tensas. Nas duas primeiras ela se limitou a responder minhas perguntas, com o tempo começou a falar, não sei se era exatamente comigo, ou se com ela mesma... o som de sua vos era distante, sem interresse, era como se ela não se escutasse, estava apenas cumprindo tabela...

--Anna você esta escutando o que diz??
-- Sim, respondeu ela automaticamente...

Persisti no silencio, que a essa altura já estava me incomodando, lancei meus olhos nos seus, e ela não sustentou  por mais de 2 segundos e  fixou-se em algum ponto entre o tapete e a mesa.

-- To me escutando sim, dra...

-- Que tal você me chamar de Lara... você se sente confortável assim?
-- Tanto faz..

Por mais ou menos 6 meses seguimos nessa batida, eu tentando transpor a muralha da china. E ela cada vez erguendo mais um tijolo de defesa atrás de conversas comuns...

Nada me irritava mais do que quando o paciente começava descrever cada detalhe de cada fato de cada dia da semana.

A alguns anos eu tive um paciente, que era um corretor de sucessos, Dick passou 45 mim me falando de debrêntures e títulos imobiliários, me senti de volta ao ensino médio em uma desesperadora aula de  matemática. Eu respirava fundo e fazia o máximo de esforço para prestar atenção, geralmente  era em vão, minha mente acabava em alguma espécie de desenho animado,, com um cachorro cantor.

Quando o paciente me chamava a realidade  estrelava meu mais intenso olhar terapêutico e me salvava com um típico  jargão proficional... “eu  estava me perguntando, por que você abordou isso, e porque agora..”

Desta vez meu jargão não funcionou, os olhos dela brilharam com uma astúcia infantil..

-- Você está me escutando, Lara...

Eu quase vibrei, era a primeira vez que ela me  contestava, era a primeira vez que ela me encarava, era a primeira vez que ela falava realmente  comigo...

-- Não, você me pegou Anna, eu estava longe...

--A onde??

Achei que não seria nada construtivo falar do meu cachorro cantor..

-- Eu prometo que volto a isso, mas agora pensando  Anna, o que me fez dispersar, você  pode me ajudar nisso??

-- A  analista aqui é você!

Não me contive e sorri, foi um sorriso prazeroso, lembrei imediatamente de Freud, quando após uma interpretação brilhante, acendia um charuto e oferecia outro ao seu paciente.
Eu não tinha charutos, apenas algumas balas diets na bolsa, mas oferecer bala para uma anorexica, ela com certeza sairia correndo...
--É justo.
-- Então vamos lá, eu lembro que comecei a me entediar quando você começou a descrever cada passo da sua aula de física.
Os olhos dela estavam acesos, eu havia atraído sua atenção... algo estava mudando...

--E por que você acha que eu fiz isso...

Ela estava invertendo os papeis, resolvi entrar no jogo, afinal era melhor que um monologo...

Levantei da minha cadeira e propus trocarmos de lugar... ela aceitou deliciada... estávamos finalmente juntas...

-- Você não vai escapar da minha pergunta...

-- Você acha que eu quero isso??

-- A não, quem faz as perguntas hoje sou eu,, disse ela com risinho sapeca...ela estava se divertindo tanto quanto eu.

-- Ok dra,  eu acho que você fez isso para ver até onde eu esperaria, para me forçar a te fazer mudar de assunto.

-- Continue, estou ouvindo. Ela me remedava com talento...
Era a primeira vez que eu passava por isso,, hilário.

Aquela sessão foi um divisor de águas, nas semanas seguintes parecia que eu estava atendendo outra pessoa...

-- E quanto eu te devo doutora Anna...
--È serio?
- O que quizer...
Eu me arrependeria...
- Sua pulseira.

A pulseira de que eu tinha ganhado a 10 anos do meu pai.. .palavra é palavra e como diria minha avó “quem fala de mais da bom dia a cavalos”...

Com todo o pesar do mundo tirei a pulseira e coloquei em seu pulso, enquanto ela esboçava um largo sorriso...

--È dra, nossa sessão hoje foi produtiva...

Engraçadinha..

Consultando o relógio e vestindo o sorriso mais terapêutico que possuía, Lara levantasse e vai buscar sua nova paciente...

Está na hora de conhecer Daniely.
 
July Reader

Nenhum comentário:

Postar um comentário