domingo, 31 de outubro de 2010

4- A Analista. Memórias


Anna invadiu minha sala sorridente e logo começou a falar...
Ela continuava a rir de mim, contou que todos na escola amaram sua nova pulseira, ela disse que havia sido presente de sua terapeuta...

Então ela falava de mim com as amigas... isso estava ficando bom...

As sessões eram cheias de vida, eu quase não me encontrava mais com meu cachorro cantor, Anna ocupava cada espaço da minha atenção...

Cada dia nos aproximávamos mais, Ela era um refrigério, um oásis de leveza  em meu dia....
Nos divertíamos  tanto que acabei colocando-a no meio da tarde das terça-feiras modorrentas onde eu acumulava os pacientes mais pesados que eu tinha,...

O que torna um paciente “pesado” usando o linguagem da própria Anna (que havia reinventado a definição de bom/mal certo/errado fácil/difícil) não era a complexidade do caso e sim a capacidade de rir das próprias mazelas...

Dirce, uma paciente ícone das típicas terça-feiras  começava a sessão reclamando de meus honorários, do plano de saúde que não cobria, e de ela ter que gastar boa parte da aposentadoria comigo...
Só pra constar ela era procuradora aposentada e eu não chegava a um por cento de seus gastos...teve também uma menina, Nana, nunca atendi alguém com tanta doçura, porém levava para o lado pessoal as mais inocentes brincadeiras, sua auto estima era desastrosa.

Voltemos a Anna...

Ela tagarelou por uns  mim, me contando como de costume sobre a escola, amigas, namorados, namorados das amigas....

Combinamos na sessão passada que eu daria 10 minutos para o momento fofoca, como ela mesma o apelidara... e quando o tempo acabava eu imitava um relógio de tolck shwou.. PEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEm!!!!

Mas dessa vez foi ela que encerrou o tempo...
Parou de falar por um instante como se procurasse as palavras, respirando fundo começou...

--Eu........não comi nada ontem o dia todo...
--Minha mãe me forçou a jantar,,, eu entrei no banheiro e miei(vomitei) eu miei sangue.... muito sangue... até a um pedaço de pele caiu da minha garganta...


-- Porque você me contou isso agora?
-- Não é pra isso que agente ta aqui?
-- Estamos aqui pra muitas coisas... mas essa é a primeira vez que você toca nesse assunto... porque hoje, Ana.

-- Eu desmaiei no banheiro sozinha, eu não conseguia andar de tanta tontura... fiquei sentada no chão... o banheiro fedendo a vomito,fedendo comida e eu sentada...
-- Quando recobrei a consciência comecei a miar de novo... eu não agüentava de dor, mas era impossível... minha garganta cortada, tava difícil, só o meu dedo não faz mais efeito, eu coloquei uma colher...

Quando já não tinha mais nada p/ vomitar, só sangue,  eu tomei 4 litros de água... não conseguia respirar, parecia que o meu coração ia parar... forcei uma vez e comecei a miar sem controle... só água... meu estomago se contorcia de dor... mesmo quando toda água saiu eu não consegui parar, não tinha mais nada e a ânsia não parava... ai veio o sangue, e eu cai pra trás exausta.

--Minha unha já ta em carne viva Lara, disse a pequena me estendendo as mãos...

--Outro dia o Caio, lembra o guri que eu gosto da minha sala.

Meneei a cabeça positivamente.. não queria que ela parasse de falar...

--Ele olhou pra mim e me perguntou se eu estava doente, os olhos dele eram de pena...

--Merda, aquele idiota sentiu pena de mim...

Ela desatou a chorar,,, eu não podia recuar agora...
-- Porque você acha que ele sentiu pena de você?

--Você é retardada, o guri me pergunta se eu estou doente e me olha com aqueles olhos de “to do seu lado coitadinha”

Ignorando o elogio, eu prossegui..

-- E ele tem motivo para ter pena de você?

Ela me fulminou com os olhos cheios de ódio, e saiu batendo a porta...

Foi a mais longa sessão de 17 minutos que eu já fiz...

A Analista largou o mouse e começou a andar inquieta pela sala...

Sentada na poltrona azul (destina aos pacientes) ela tentava organizar as idéias...em sua memória brilhavam mais detalhes que qualquer anotação...

Na semana seguinte aquela sessão a menina chegou cabisbaixa... parecia uma criança temendo a bronca da mãe, que no caso era eu.

--Acho q te devo desculpas, disse ela me estendendo um bombom...

--Apesar do gesto totalmente fora de hora e de lugar a desproteção da menina me comoveu...

Eu podia interpretar, questionar o porque daquilo, mais tive  receio de que ela se partisse ao meio, suas emoções eram ainda mais frágeis que seu pequeno corpo.

-- Sem problemas Anna, disse deixando o chocolate sobre a mesinha .

-- Você quer falar sobre o que aconteceu na última sessão?

-- Eu tava muito brava e acho que descontei em você.

-- Brava com o Caio?

-- Não, acho q dele não.

-- E então?
- Eu me senti um lixo quando ele perguntou se eu estava doente... sabe quando você quer sumir;
-- Porque a pergunta dele te incomodou tanto?
--Sabe Lara, você  é a única que conversa comigo.

Seus olhos lacrimejavam enquanto falava...

-As outras pessoas ou me dão conselhos ou me pedem explicações...
--Outro dia a diretora da escola veio conversar comigo e me disse que eu tava com anorexia, que eu tava feia..

O choro irrompeu outra vez... cada palavra sangrava uma ferida naquele coração pequenino....

-- Eu não posso nem ir na farmácia, se eu vou comprar cereal a atendente me pergunta se eu só como aquilo o dia todo...
Uma vez eu fui pesar a noite, e uma velha enxerida me falou, “Para de emagrecer guria você já ta pele e osso...”
-- Eu não agüento mais, não agüento...
-- Quando eu era gorda se me viam com um chocolate faziam piadinha, minha mãe parecia uma neurótica cada dia com uma nova dieta, me levando em nutricionistas e brigando comigo quando eu fracassava.

-- Uma vez no primeiro dia de aula, eu coloquei um shortinho e ela me disse para eu tirar, que ela não queria que eu ficasse ridícula...

Enquanto a boca derramava palavras os olhos derramavam lágrimas... ela respirava com dificuldade, há muito eu havia perdido o ar.

-- Quando agente ia comprar roupa tudo que eu queria servia nela... nada me servia, as vendedoras me olhavam com pena...
-- Não consigo!
-Não consigo ......... desculpa... eu acho q vou vomitar.

Hora de assumir o controle...

-- Tudo bem Anna, você foi muito corajosa...

Eu detestava tratar meus pacientes como crianças... Parabéns você foi ótimo, bom garoto... só me faltava estender um pirulito...  me sentia uma hipócrita... mas se eu forçasse mais um pouco ela dissolveria na minha frente...

Uma vez um professor me disse que eu me apegava demais a meus pacientes... Não consigo achar um sentido para a psicologia se eu não der o melhor de mim a cada paciente.
E isso sem duvida envolve meus sentimentos...

Depois que ela saiu fiquei pensando... como as marcas da infância pode se arraigar de forma tão profunda ...  è como se ela estacionasse naquela faze da vida... gorda, humilhada sozinha...

Meu cérebro estava cozinhando,,,  e minha próxima paciente também merecia o melhor de mim...

Cansar o corpo aquieta a mente....fui para o meu refugio de sanidade, o parque central...

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